A volta do glamour: quando estar bem apresentada voltou a ser uma forma de presença
Depois da era da informalidade e do minimalismo, glamour, elegância e cuidado com a imagem recuperam espaço na moda, no trabalho e na cultura contemporânea.
Durante algum tempo, parecer ter se esforçado demais quase se tornou uma infração estética. O tênis substituiu o salto, a maquiagem precisava fingir que não existia, o cabelo cuidadosamente feito deveria parecer casual e roupas muito construídas corriam o risco de transmitir uma formalidade considerada antiquada. A sofisticação continuava presente, mas precisava esconder o próprio trabalho. Agora, algo mudou. O prazer de se arrumar voltou a ocupar espaço — e, com ele, uma palavra que a moda havia tratado com certa desconfiança nos últimos anos: glamour.
O movimento é visível antes mesmo de ser nomeado. Nos tapetes vermelhos, voltaram os vestidos desenhados para efetivamente parecer vestidos de noite, com silhuetas marcadas, joias, cabelos elaborados, tecidos que refletem luz e uma dose assumida de espetáculo. No Oscar de 2025, a imprensa internacional observou justamente essa retomada de códigos clássicos de Hollywood, com cristais, drapeados, corseteria e construções mais formais dominando parte importante da noite. No Festival de Cannes de 2026, a imagem voltou a ser deliberadamente polida, em contraste com a longa temporada em que a provocação, o arquivo e a ironia pareciam interessar mais do que a elegância propriamente dita.
Seria fácil interpretar tudo isso como mais um ciclo nostálgico da moda. Seria também insuficiente. O que está acontecendo ultrapassa a barra de um vestido ou o retorno de uma luva longa. Depois de anos em que conforto, praticidade e informalidade redefiniram o guarda-roupa, existe uma vontade renovada de composição. Não necessariamente de formalidade, e muito menos de submissão a antigas regras sociais, mas de intenção.
A diferença é importante. Glamour, hoje, não significa obrigatoriamente salto alto, vestido longo ou maquiagem impecável. Significa que a imagem deixou de ser tratada como acidente.
Há razões bastante concretas para isso. A vida voltou a acontecer presencialmente com intensidade, empresas endureceram políticas de retorno aos escritórios e ambientes profissionais recuperaram parte de seus códigos visuais. Em agosto de 2026, o Financial Times relacionou o crescimento recente de Ralph Lauren e Coach nos Estados Unidos justamente a uma retomada de roupas mais polidas e a uma procura crescente por peças percebidas como investimentos de guarda-roupa. Depois da hegemonia do athleisure e do uniforme doméstico, vestir-se novamente para ser visto ganhou outro significado.
Mas existe uma transformação ainda mais interessante acontecendo fora dos escritórios. Nunca fomos tão vistos — e nunca houve tantas imagens disputando nossa atenção.
Passamos o dia diante de rostos, vídeos, fotografias, reuniões por câmera, stories, restaurantes fotografados, aeroportos fotografados, academias fotografadas e vidas inteiras editadas para telas de poucos centímetros. A promessa inicial das redes era espontaneidade. O resultado foi uma cultura profundamente visual. Quando todos produzem imagens o tempo inteiro, a aparência deixa de ser detalhe e se torna linguagem.
Imagem nunca foi apenas beleza. É leitura. Antes de alguém conhecer nossa inteligência, nosso trabalho ou nosso repertório, existe uma informação silenciosa sendo transmitida pela maneira como ocupamos um espaço. Roupa, postura, cabelo, pele, gesto, voz e cuidado não contam toda a história de uma pessoa — seria absurdo imaginar que contam —, mas participam inevitavelmente dela.
Durante anos, certa ideia de autenticidade tentou opor conteúdo e aparência, como se uma mulher interessada em moda precisasse provar profundidade e uma mulher intelectualmente respeitável devesse demonstrar alguma indiferença à própria imagem. É uma oposição pobre. Há inteligência também na construção visual. Há escolha em saber quando chamar atenção, quando reduzir ruído, quando usar um vestido extraordinário e quando a camisa branca é suficiente.
O retorno do glamour talvez seja, principalmente, o retorno dessa consciência.
Isso também explica por que o fenômeno não coincide exatamente com ostentação. O mercado de luxo atravessa um momento em que preço e logotipo já não bastam para convencer. Pesquisas recentes mostram consumidores mais atentos a qualidade, longevidade, versatilidade e artesania; marcas passaram a enfatizar novamente construção, materiais e trabalho manual como justificativas de valor. Em 2025, a Vogue Business identificou justamente essa mudança de percepção, enquanto um levantamento divulgado pela Farfetch em janeiro de 2026 mostrou que 89% dos consumidores de luxo entrevistados no Reino Unido priorizavam versatilidade ao comprar moda de alto padrão.
É uma distinção elegante: parecer bem não exige parecer cara.
O glamour contemporâneo está menos interessado em provar aquisição e mais interessado em demonstrar critério. Uma calça perfeitamente ajustada pode ter mais presença do que uma peça coberta de símbolos reconhecíveis. Um cabelo bem cuidado pode transformar completamente uma camiseta branca. Um perfume escolhido com precisão, uma joia usada repetidamente, um sapato impecável, uma pele bem tratada ou a decisão de vestir uma cor quando todos escolheram bege dizem mais sobre imagem do que a soma automática de tendências.
Depois da era do “sem esforço”, existe até certo alívio em admitir que algumas coisas exigem esforço.
Não há nada particularmente moderno em fingir que beleza acontece sozinha.
Talvez por isso as referências ao antigo glamour de Hollywood tenham reaparecido com tanta força. O fascínio não está necessariamente na sociedade que produziu aquelas imagens — com suas regras, limitações e expectativas que não precisamos desejar de volta —, mas na dimensão de acontecimento que existia nelas. Vestir-se podia marcar uma noite. Um penteado tinha intenção. Uma joia não era colocada por acaso. Havia consciência de entrada, presença e memória.
A mulher contemporânea não precisa recuperar as regras daquela época para recuperar seu prazer visual.
Essa é, provavelmente, a parte mais interessante da nova fase. O glamour regressa sem exigir obediência. Uma mulher pode usar alfaiataria severa hoje e transparência amanhã. Pode envelhecer sem desaparecer dentro de uma suposta discrição obrigatória. Pode gostar de beleza sem transformar isso em obrigação moral. Pode escolher estar extraordinariamente arrumada simplesmente porque decidiu que aquela ocasião merece.
Não é sobre agradar ao olhar dos outros. Também não é necessário fingir que o olhar dos outros deixou de existir.
Imagem é uma das formas pelas quais participamos do mundo. Em uma época de excesso de exposição, fazê-la com intenção tornou-se quase uma maneira de recuperar autoria. Talvez seja essa a verdadeira volta do glamour: não o retorno de uma estética específica, mas de uma atitude. A ideia de que presença merece cuidado, que beleza pode carregar inteligência e que aparecer bem não é necessariamente vaidade.
Às vezes, é precisão.